Substituição de parque municipal por caixa d’água em Gramado – RS

De Gramado – RS nos vem a notícia de que a cidade está há dois dias sem água.

O tragicômico desta história: a prefeitura do município cedeu uma área verde, destinada a ser praça municipal, para que a Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN) instalasse uma caixa d’água no local. Ocorre que a área tinha sido cedida ao município em troca do aumento da densidade construtiva para a construção do condomínio “Residencial Altos da Bela Vista” (Rua Bela Vista, 300).

 

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Aspecto da área verde outrora existente na Rua Bela Vista, região central de Gramado.

A CORSAN desmatou boa parte da área e instalou uma enorme caixa d’água no local, conforme mostram as imagens abaixo.

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O poder público emite todas as licenças, mesmo em casos de flagrante ilegalidade. Mas sempre se dá um “jeitinho”, não é mesmo?

Quem adquiriu alguma unidade residencial vizinha por conta de anúncios como “vista indevassável para área verde” trocou gato por lebre e ficou foi com com uma bela vista para um monstrengo! E sem desconto ou isenção de IPTU…

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“Vista indevassável para área verde”? 

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Ao fundo, pilha de lenha com os restos da mata secundária suprimida “para resolver o problema da falta d’água”.

Como vemos, o planejamento urbanístico e a gestão ambiental municipais não seguem o tão decantado “estilo bávaro-suíço” mencionado nos prospectos turísticos!

Corte de jabuticabeiras em Cláudio – MG

Muitos brasileiros gostam de dizer que são “pobres”. De tanto reclamar da vida, não percebem a riqueza que os cerca e que pode estar até no seu jardim!

Recentemente, duas jabuticabeiras cinqüentenárias foram cortadas na Rua Itaúna, 64, área central de Cláudio – MG.

 

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Cadáveres picados de jabuticabeiras no centro de Cláudio – MG.

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Detalhe dos restos dos troncos e da folhagem.

O que chama a atenção, neste caso, é o fato de a jabuticaba ser uma fruta cara e disputada por conta de sua riqueza em nutrientes, especialmente do antioxidante antocianina. Há produtores especializados na produção de licores, geleias, sucos e outras especialidades baseadas nesta fruta nativa brasileira.

Além disso, é interessante observar como diversos novos empreendimentos imobiliários em São Paulo – SP possuem uma área de lazer ao ar livre que já vem “equipada” com uma jabuticabeira adulta adquirida em algum viveiro especializado.

Em outras palavras, muitos “pobres” não percebem que a riqueza pode estar no seu jardim. Em lojas especializadas, a compra de uma jabuticabeira adulta implicará num custo de milhares de reais. No Japão, há produtores que plantam esta espécie em estufas, e o custo de exemplares como os que foram cortados chega a dezenas de milhares de reais.

Resumo desta história: por preguiça ou burrice, muita gente por aí perde a oportunidade de “enriquecer” preservando o capital natural!

 

Destruição da mata ciliar restaurada do Córrego Tremembé em São Paulo – SP

O caso do Córrego Tremembé é um bom exemplo de como, no Brasil, o poder público pode ser o primeiro a não cumprir a legislação ambiental, que estipula que margens de corpos d’água são “áreas de preservação permanente”.

Em 2007, a administração pública municipal tinha decidido implementar um parque linear ao longo do Córrego. A partir deste projeto, munícipes residentes no entorno começaram a restaurar a vegetação arbórea por conta própria, como apresentado aqui.

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Em 2010, a área recebeu diversas mudas de árvores provenientes da “compensação ambiental” por conta das obras na Marginal Pinheiros. Ou seja, árvores foram suprimidas ao longo do Rio Pinheiros – que também deveria ser “área de preservação permanente” segundo a legislação ambiental brasileira, ou seja, deveria ser uma área verde e não uma avenida.

Em algum ponto entre 2010 e 2018, a administração pública municipal decidiu construir um “piscinão” na região. Ou melhor, vários piscinões, ao que parece. E a primeira coisa que fez foi cortar as árvores no local, tanto as provenientes das “compensações” como as plantadas e cuidadas pela população do entorno.

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Placas em profusão no lugar da restauração ambiental… O tronco na parte inferior da imagem é de uma Sibipiruna, provavelmente proveniente de algum transplante executado pela PMSP.

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Corticeira da Serra plantada há cerca de 10 anos nas margens do Córrego Tremembé, no cruzamento entre a Av. Maria Amália e a Rua Comendador Quirino.

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Detalhe da Corticeira da Serra suprimida, a administração pública não se deu nem ao trabalho de tentar transplantar o exemplar.

 

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Pitangueira plantada há cerca de 10 anos nas margens do Córrego Tremembé, em frente ao “Rei do Óleo”.

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Aspecto da área antes da supressão para construção de “piscinão”.

Convém registrar que os problemas de alagamentos ao longo do córrego decorrem do fato de haver imóveis residenciais e comerciais que foram construídos em locais aonde não deveriam ter sido construídos, ou seja – em área de preservação permanente, na margem ou em cima do córrego! É óbvio que um imóvel construído na beira, dentro ou em cima de um curso d’água será inundado a cada evento de precipitação mais intensa. Portanto, a localização de muitos imóveis está em desacordo com as normas ambientais brasileiras, já que o Código Florestal existe desde meados dos anos 60. Em outras palavras, são os imóveis que deveriam ser removidos caso a administração pública paulistana optasse por políticas “ambientalmente corretas” e “sustentáveis”. A construção de piscinões demanda recursos financeiros de implantação e manutenção para uma “briga” eterna contra as “leis da natureza”, ou seja, é algo que não faz sentido do ponto-de-vista econômico. São recursos que deveriam ser investidos em restauração ambiental e florestal, e não em tentar combater os efeitos da urbanização predatória.

Outro ponto que a administração pública municipal desconsiderou foram as mudanças climáticas. Segundo estudos do INPE, a previsão para o sudeste brasileiro é de desertificação, ou seja, recursos públicos deveriam ser direcionados para restauração florestal (com o intuito de regularizar o regime hidrológico) e não para supressão florestal e impermeabilização de solos.

Este é um dos muitos exemplos da absoluta desconsideração que o poder público brasileiro tem pelo meio ambiente do país. Sugerimos que o Ministério Público e outras instituições ligadas ao tema analisem o assunto.